Administração - Arte - Poiesis - Fotografia - Literatura - Cinema - Música

08 abril, 2006

Laranja Mecânica



Será "A Laranja Mecânica" um elogio ou um manifesto contra a violência e contra a estrutura social contemporânea?


Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) é uma escolha que pode levantar dúvidas e levar a questões da mais diversa índole. O seu realizador, Stanley Kubrick, é apontado por muitos como um símbolo da desconstrução da realidade. Por outros é tido como a consciência mor de uma sociedade que caminha, apressadamente, para a extinção de valores e da própria humanidade.
Perseguido por críticas hostis, Kubrick viria a afirmar que: "Ainda que exista uma grande hipocrisia a respeito da violência, todas as pessoas estão fascinadas por ela. Afinal, o homem é o assassino mais cruel que jamais pisou o planeta". E é esta violência, filmada de maneira condenatória e nunca apologética, que Kubrick nos mostra de maneira crua.
Laranja Mecânica é um filme de antecipação, centrado nas "aventuras de um jovem cujas principais inclinações são a violência, a violação e Beethoven". Sendo um regresso ao triângulo sexo/violência/morte que o realizador já abordara em filmes anteriores (com Lolita e Dr. Estranho Amor como referências incontornáveis).
O filme atualiza e encerra de maneira definitiva a questão da violência e dos laços que a ligam ao cinema e a todas as suas formas de quase teatro em que o filme se desenrola. Foi com esmero que Kubrick trabalhou a vertente visual, com o uso perfeito da câmara lenta e das grandes angulares.
Proibido em vários países, devido à suposta apologia da brutalidade que veiculava (Burgess, o autor do livro que deu origem ao argumento, defendia que: "mais vale optar pela violência do que não optar por nada")), o filme tornou-se polémico por descrever um futuro, não muito longínquo, onde os procedimentos violentos se exercem desde as mais altas esferas do Governo sobre os cidadãos.
A ação acompanha o percurso expiatório de Alex, que vai da imaginativa prática do mal (com todas as suas nuances, e liderando um gang) à prisão. Depois de encarcerado, e já conhecido como 655321, Alex transforma-se numa espécie de angelical alter-ego e deixa-se submeter a um tratamento (o Processo Ludovico), que o limpa de todos os seus instintos agressivos (mesmo os de autodefesa), em troca da redução da pena.
Segue-se uma segunda fase em que Alex paga, com o corpo, todo o mal que fizera (a vingança das suas vítimas segue-se, em desfile) e a sua recuperação institucional ao mais alto nível, após uma reviravolta política. "Crime, castigo e recompensa" parece ser o espírito norteador desta metáfora sarcástica e iconoclasta, mas terrivelmente verdadeira, sobre a ironia inerente à relatividade e transitoriedade dos fatos e às prerrogativas do poder.
Revisto nos nossos dias, Laranja Mecânica revela-se como uma obra premonitória, imbuída, passados trinta anos (recorde-se que o filme é de 1970), do culto niilista e radical da violência e da destruição que hoje vem ao de cima, e demasiado frequentemente, durante as manifestações anti-globalização, só para dar um exemplo.
Ao mesmo tempo, Laranja Mecânica está para lá desta análise linear do argumento e do filme. Não nos podemos abstrair da obra total de Kubrick nem podemos considerar cada filme como um pedaço isolado, desligado da criação global. Não podemos esquecer que a mais complexa e completa obra cinematográfica dos últimos cinquenta anos é do mesmo autor: 2001 Uma Odisseia no Espaço. Seria redutor interpretar Laranja Mecânica como uma mera crítica da violência.
Toda a filmografia de Kubrick aponta para o "herói" solitário que deambula, perdido, por labirintos que são tecidos à sua volta. Geralmente não consegue controlar o destino que o aguarda, e de dédalo em dédalo vai tentando procurar uma saída. Saída esta que pode apenas significar seguir a sua vida. Um labirinto é a analogia perfeita de quem se encontra perdido, de quem não vislumbra as entradas e as saídas.
Ao mesmo tempo, e para lá de toda a iconoclastia e crítica da humanidade que Kubrick nos legou, os seus filmes labirínticos, fechados, sem que se vislumbre o princípio ou o fim, propõem o universo como algo circular, a esfera perfeita, um infinito que se prolonga no reflexo especular dos espelhos que o ladeiam.
Demiurgo, excêntrico, génio, muitas são as palavras usadas para descrever Kubrick ou para adjectivar a sua obra. Os seus filmes e os seus argumentos proporcionam análises detalhadas e complicadas, muitas vezes sem que se vislumbrem soluções. São obras perfeitas de fruição e interpretação individual.



Sinopse


Numa Inglaterra vagamente futurista e atingida por uma importante crise social, um jovem, Alex DeLarge, chefe de um bando, vive de diversas rapinas apesar da vigilância policial de que é objecto. Com os seus companheiros, os Droogs, prossegue as suas escapadas criminosas: moer de pancada um mendigo; guerra entre gangs; assalta uma casa isolada onde vive um escritor de esquerda, violação da esposa e sova violenta no homem. Todas as suas acções são conduzidas num tom trocista não desprovido de uma certa consciência estética.
De regresso a casa, Alex recebe a visita de um delegado da assistência social, ser abjecto, que o avisa que se acautele com a sua violência. Depois deste sair, Alex entrega-se à sua distracção favorita: a música de Beethoven que escuta religiosamente. Por fim, arranja duas jovens "apanhadas" num Drugstore com quem organiza uma mini orgia.
No dia seguinte, quando os membros do seu bando começam a estar fatigados da sua tirania, ele condu-los a casa de uma mulher só, a mulher dos gatos, que assassina, em virtude da forte resistência que esta lhe opôs. Quando está para fugir é traído pelos Droogs e a polícia prende-o.
Condenado a uma pesada pena, a sua hipocrisia atrai as boas graças do capelão, quando ele apenas sonha com violência e fornicação. Astuciosamente aceita prestar-se ao tratamento Ludovico. Esta terapia de choque foi aperfeiçoada por médicos para libertar o país dos delinquentes. É um método de lavagem ao cérebro que anula todo o livre-arbítrio na vítima. Este tratamento, destinado a fazer abominar a violência e o espectáculo da violência àquele que a praticava tem perfeito êxito. Mas um erro de programação torna igualmente insuportável a Alex a música de Beethoven.
Liberto, Alex volta para casa onde os seus pais já o substituíram por um valentão presunçoso. Excluído, rejeitado, perdido, vagueia por Londres e sofre em contrapartida a violência que usara no passado. Vítima da vingança dos mendigos, depois da dos seus antigos camaradas de novo colaboradores da polícia, amachucado, ferido, refugia-se por acaso na casa do escritor de esquerda. A mulher tinha morrido em consequência da violação e o escritor está paralítico em virtude das pancadas recebidas. Este reconhece o agressor e entrevê ao mesmo tempo a possibilidade de se vingar e de criar problemas ao governo empurrando Alex para o suicídio.
A Nona Sinfonia de Beethoven que Alex preferia vai ser o instrumento desse plano: de facto, ao escutá-la, Alex atira-se pela janela.
Mas sobrevive e por sua vez é o governo conservador que conta utilizar o jovem contra a oposição. No hospital tratam-no, prestam-lhe todos os cuidados e fazem-no entrever um futuro promissor. Alex concorda hipocritamente, bem decidido a utilizar a sua nova posição para satisfazer o seu gosto de violência e sexo.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

I like it! Keep up the good work. Thanks for sharing this wonderful site with us.
»

12 agosto, 2006 04:13

 

Postar um comentário

<< Home